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O retorno do trem
Durante 37 anos, Acrízio de Souza,
de 75 anos, acompanhou o burburinho da estrada de ferro em Ipameri,
a 214 quilômetros de Goiânia. Ele trabalhou de 1938
a 1975 na estação ferroviária da cidade, e
conviveu de perto com os milhares de passageiros que tinham no trem
seu único meio de transporte.
As chegadas e partidas foram interrompidas
pela paralisação do transporte de pessoas nas estradas
de ferro goianas. Foi uma pena, desabafa. A tristeza
do ex-chefe da estação, no entanto, parece estar com
os dias contados. É que um programa do governo estadual deverá
tombar e revitalizar 22 estações de 13 municípios
e reativar o trem de passageiros.
O projeto Estação Goiás
foi lançado oficialmente pela Agência Goiana de Cultura
Pedro Ludovico (Agepel) nesse feriado, durante o 1º Encontro
Regional da Estrada de Ferro Goiás. O evento aconteceu em
Ipameri, de 30 de maio até este sábado.
O programa vai envolver 270 quilômetros
de trilhos, o tombamento de 22 estações, a nova utilização
de 11 delas e o retorno do trem de passageiros. De acordo com a
dirigente do encontro, Maria Amélia Rossi, o tombamento e
a reforma das estações deverão estar concluídos
até o final do ano. O restante das etapas depende de
conseguirmos empresas patrocinadoras, explica.
Além de apresentar o projeto aos municípios
envolvidos incluindo as prefeituras e os representantes das
comunidades , o evento também teve como objetivo mostrar
a experiência de outros Estados, onde há utilização
do trem de passageiros com finalidade turística e cultural.
As dificuldades e êxitos do processo
de revitalização das estações do interior
paulista foram abordados pelo arquiteto Marcelo Cachioni. Ele integra
o projeto de restauração de edifícios históricos
da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e é vice-presidente
do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural
de Piracicaba.
Segundo Cachioni, um corredor intermunicipal
de cultura foi criado, envolvendo as cidades de Araras, Limeira,
Piracicaba, Rio Claro, Americana e Santa Bárbara. O
corredor serve para concentrar os esforços das prefeituras
desses municípios, que querem revitalizar as estações
ferroviárias antigas, mas ainda não sabem como,
esclarece.
A dificuldade dos prefeitos, conforme o arquiteto,
vem do fato de que as estações pertencem à
Rede Ferroviária Federal S.A.
(RFFSA), e, por isso, não podem ser restauradas com o dinheiro
dos municípios. A Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe
a prefeitura de investir em obras que não são de sua
propriedade, explica.
Viabilidade
Para driblar esse obstáculo, Cachioni aconselhou os prefeitos
a pressionarem da RFFSA que está em processo de liquidação
para doar as estações aos municípios.
Criar alternativas, como a troca das dívidas de Imposto
Territorial Urbano das estações pela posse dos prédios
pode ser uma saída. Essa proposta já foi feita por
algumas cidades do corredor, conta.
Segundo ele, as dicas dadas às prefeituras
paulistas também poderão ter grande utilidade em Goiás.
Dificuldades à parte, o trem de passageiros
turístico também pode render muitos recursos aos municípios.
O diretor do Trem do Corcovado (do Rio de Janeiro), Sávio
Neves Filho, levou aos participantes do encontro os bons resultados
da exploração da estrada de ferro que leva os turistas
a um dos monumentos mais visitados da cidade.
Transportamos 600 mil pessoas por ano.
Os ingressos para um percurso de 4 quilômetros são
vendidos a R$ 20 e rendem R$ 10 milhões ao ano, diz.
De acordo com ele, o caminho também pode ser feito de carro,
mas o movimento na estrada de ferro é 30% maior que no asfalto.
O trem, por si só, já
é um poderoso atrativo, avalia. Ele proporciona
uma viagem aconchegante, aprazível e confortável.
Se for colocado à disposição dos passageiros
goianos, com certeza vai viajar sempre lotado, estima. Neves
é vice-presidente da Associação Brasileira
de Operadores de Trens Turísticos e Culturais (ABBOTC), que
já reúne cinco filiados.
Tanto o diretor do Trem do Corcovado
quanto o arquiteto Marcelo Cachioni ficaram fascinados pela beleza
da antiga estação de ferro de Ipameri. A obra foi
construída em 1913, seguindo o estilo arquitetônico
inglês, e foi desativada em 1975. Restou apenas uma outra
estação, erguida na década de 70, apenas para
o transporte de cargas. Grande parte do desenvolvimento da cidade
deve-se ao antigo terminal, que durante quase 40 anos foi a sede
de operações do único meio de transporte na
região. É uma edificação muito
bem conservada, diz Cachioni.
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