Vereadora Patrícia Guimarães
Patrícia Guimarães
Projeto Estação Goiás

O retorno do trem

Durante 37 anos, Acrízio de Souza, de 75 anos, acompanhou o burburinho da estrada de ferro em Ipameri, a 214 quilômetros de Goiânia. Ele trabalhou de 1938 a 1975 na estação ferroviária da cidade, e conviveu de perto com os milhares de passageiros que tinham no trem seu único meio de transporte.

As chegadas e partidas foram interrompidas pela paralisação do transporte de pessoas nas estradas de ferro goianas. “Foi uma pena”, desabafa. A tristeza do ex-chefe da estação, no entanto, parece estar com os dias contados. É que um programa do governo estadual deverá tombar e revitalizar 22 estações de 13 municípios e reativar o trem de passageiros.

O projeto Estação Goiás foi lançado oficialmente pela Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico (Agepel) nesse feriado, durante o 1º Encontro Regional da Estrada de Ferro Goiás. O evento aconteceu em Ipameri, de 30 de maio até este sábado.

O programa vai envolver 270 quilômetros de trilhos, o tombamento de 22 estações, a nova utilização de 11 delas e o retorno do trem de passageiros. De acordo com a dirigente do encontro, Maria Amélia Rossi, o tombamento e a reforma das estações deverão estar concluídos até o final do ano. “O restante das etapas depende de conseguirmos empresas patrocinadoras”, explica.

Além de apresentar o projeto aos municípios envolvidos – incluindo as prefeituras e os representantes das comunidades –, o evento também teve como objetivo mostrar a experiência de outros Estados, onde há utilização do trem de passageiros com finalidade turística e cultural.

As dificuldades e êxitos do processo de revitalização das estações do interior paulista foram abordados pelo arquiteto Marcelo Cachioni. Ele integra o projeto de restauração de edifícios históricos da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e é vice-presidente do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Piracicaba.

Segundo Cachioni, um corredor intermunicipal de cultura foi criado, envolvendo as cidades de Araras, Limeira, Piracicaba, Rio Claro, Americana e Santa Bárbara. “O corredor serve para concentrar os esforços das prefeituras desses municípios, que querem revitalizar as estações ferroviárias antigas, mas ainda não sabem como”, esclarece.

A dificuldade dos prefeitos, conforme o arquiteto, vem do fato de que as estações pertencem à Rede Ferroviária Federal S.A.
(RFFSA), e, por isso, não podem ser restauradas com o dinheiro dos municípios. “A Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe a prefeitura de investir em obras que não são de sua propriedade”, explica.

Viabilidade
Para driblar esse obstáculo, Cachioni aconselhou os prefeitos a pressionarem da RFFSA – que está em processo de liquidação – para doar as estações aos municípios. “Criar alternativas, como a troca das dívidas de Imposto Territorial Urbano das estações pela posse dos prédios pode ser uma saída. Essa proposta já foi feita por algumas cidades do corredor”, conta.

Segundo ele, as dicas dadas às prefeituras paulistas também poderão ter grande utilidade em Goiás.

Dificuldades à parte, o trem de passageiros turístico também pode render muitos recursos aos municípios. O diretor do Trem do Corcovado (do Rio de Janeiro), Sávio Neves Filho, levou aos participantes do encontro os bons resultados da exploração da estrada de ferro que leva os turistas a um dos monumentos mais visitados da cidade.

“Transportamos 600 mil pessoas por ano. Os ingressos para um percurso de 4 quilômetros são vendidos a R$ 20 e rendem R$ 10 milhões ao ano”, diz. De acordo com ele, o caminho também pode ser feito de carro, mas o movimento na estrada de ferro é 30% maior que no asfalto.

“O trem, por si só, já é um poderoso atrativo”, avalia. “Ele proporciona uma viagem aconchegante, aprazível e confortável. Se for colocado à disposição dos passageiros goianos, com certeza vai viajar sempre lotado”, estima. Neves é vice-presidente da Associação Brasileira de Operadores de Trens Turísticos e Culturais (ABBOTC), que já reúne cinco filiados.

Tanto o diretor do Trem do Corcovado quanto o arquiteto Marcelo Cachioni ficaram fascinados pela beleza da antiga estação de ferro de Ipameri. A obra foi construída em 1913, seguindo o estilo arquitetônico inglês, e foi desativada em 1975. Restou apenas uma outra estação, erguida na década de 70, apenas para o transporte de cargas. Grande parte do desenvolvimento da cidade deve-se ao antigo terminal, que durante quase 40 anos foi a sede de operações do único meio de transporte na região. “É uma edificação muito bem conservada”, diz Cachioni.

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